sábado, 4 de junho de 2016
Ser mestre com o Mestre
Instrução e Educação
E' preciso não confundir instrução com educação. A educação abrange a
instrução, mas pode haver instrução desacompanhada de educação.
A instrução relaciona-se com o intelecto: a educação com o caráter.
Instruir é ilustrar a mente com certa soma de conhecimentos sobre um ou
vários ramos científicos. Educar é desenvolver os poderes do espírito, não
só na aquisição do saber, como especialmente na formação e consolidação
do caráter.
O intelectualismo não supre o cultivo dos sentimentos. "Não basta ter
coração, é preciso ter bom coração", disse Hilário Ribeiro, o educador
emérito cuja extraordinária competência pedagógica estava na altura da
modéstia e da simplicidade que lhe exornam o formoso espírito.
Razão e coração devem marchar unidos na obra do aperfeiçoamento do
espírito, pois em tal importa o senso da vida. Descurar a aprendizagem da
virtude, deixando-se levar pelos deslumbramentos da inteligência é erro
de funestas conseqüências.
Sobre este assunto, não há muito, o presidente dos Estados Unidos da
América do Norte citou um julgado da "Suprema Corte de Justiça" de
Massachusetts, no qual, entre outros princípios de grande importância, se
enunciou o de que "o poder intelectual só e a formação científica, sem
integridade de caráter, podem ser mais prejudiciais que a ignorância. A
inteligência, superiormente instruída, aliada ao desprezo das virtudes
fundamentais, constitui uma ameaça".
Convém acentuar aqui que a consciência religiosa corresponde, neste
particular, ao fator principal na formação dos caracteres. Já de propósito
usamos a expressão — consciência religiosa — ao invés de religião, para
que se não confundam idéias distintas entre si. Religiões há muitas, mas a
consciência religiosa é uma só. Por essa designação entendemos o império
interior da moral pura, universal e imutável conforme foi ensinada e
exemplificada por Jesus-Cristo. A consciência religiosa, importa em um
modo de ser, e não em um modo de crer.
E' possível que nos objetem: mas, a moral cristã é tão velha, e nada tem
produzido de eficiente na reforma dos costumes. Retrucaremos: não pode
ser velho aquilo que não foi usado. A moral cristã é, em sua pureza e em
sua essência, desconhecida da Humanidade. Sua atuação ainda não se fêz
sentir ostensivamente. O que se tem espalhado como sendo o Cristianismo
é a sua contrafação. Da sanção dessa moral é que está dependendo a
felicidade humana sob todos os aspectos.
O intelectualismo, repetimos, não, resolve os grandes problemas sociais
que estão convulsionando o mundo. O fracasso da Liga das Nações é um
exemplo frisante; e, como esse, muitos outros estão patentes para os que
têm olhos de ver.
Bem judiciosas são as seguintes considerações de Vieira sobre o
inestimável valor da educação sob seu aspecto moral:
"Em todas as ciências é certo que há muitos erros, dos quais nasce a
diferença de opiniões; em todas as ciências há muitas ignorâncias, as
quais confessam todos os maiores letrados que não compreendem nem
alcançam. Pois se veio a Sabedoria divina ao mundo, porque não alumiou
estes erros, porque não tirou estas ignorâncias? Porque errar ou acertar em
todas as matérias, sabê-las ou não as saber, pouca coisa importa; o que só
importa é saber salvar, o que só importa é acertar a ser bom: e isto é o que
nos veio ensinar o Filho de Deus. Nem ensinou aos filósofos a
composição dos continentes, nem aos geômetras a quadratura do círculo,
nem aos mareantes a altura de Leste e Oeste nem aos químicos o
descobrimento da pedra filosofal nem aos médicos as virtudes das ervas,
das plantas e dos mesmos elementos; nem aos astrólogos e astrônomos o
curso, a grandeza, o número e as influências dos astros: só nos ensinou a
ser humildes só nos ensinou a ser castos, só nos ensinou a fugir da
avareza, só nos ensinou a perdoar as injúrias só nos ensinou a sofrer
perseguições pela causa da justiça, só nos ensinou a chorar e aborrecer o
pecado e amar e exercitar a virtude; porque estas são as regras e as
conclusões, estes os preceitos e os teoremas por onde se aprende a ser
bom a ser justo, que é a ciência que professou e veio ensinar o Filho de
Deus"
***
E' de semelhante espécie de ensino que precisam os homens de nossos
dias. Todos os problemas do momento atual se resumem em uma questão
de caráter: só pela educação podem ser solucionados.
Demasiada importância se liga às várias modalidades do saber,
descurando-se o principal, que é a ciência do bem.
Os pais geralmente se preocupam com a carreira que os filhos deverão
seguir, deixando-se impressionar pelo brilho e pelo resultado utilitário que
de tais carreiras possam advir. No entretanto, deixam de atentar para a
questão fundamental da vida, que se resolve em criar e consolidar o
caráter. Antes de tudo, e acima de tudo, os pais devem curar da educação
moral dos filhos, relegando às inclinações e vocações de cada um a
escolha da profissão, como acessório.
A crise que assoberba o mundo é a crise de caráter, responsável por
todas as outras.
O momento reclama a ação de homens honestos, escrupulosos,
possuídos do espírito de justiça e compenetrados das suas
responsabilidade.
Temos vivido sob o despotismo da inteligência Cumpre sacudir-lhe o
jugo fascinador, proclamando o reinado do caráter, o império da
consciência, da moral e dos sentimentos
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